E se tudo fosse diferente...
Um pouco da história de Dona
Marcelina…
Dona Marcelina Silva Santana é uma
senhora de 55 anos, negra, baiana, casada, mãe de três filhos, católica
atuante, doméstica e participativa socialmente. Ela é a quarta dos oitos filhos
do Sr. Osvaldo Santana e de D. Nilza Oliveira Silva, ambos. Nasceu, por
parteira, em uma fazenda localizada no distrito de Pimenteira, pertencente ao
município de Ilhéus, Bahia. Quando criança teve sarampo e catapora, assim como
a maioria de seus irmãos. Um destes, o irmão mais novo morreu antes do primeiro
ano de vida, mas não há informações sobre a causa desta.
Ao longo de sua infância e
adolescência, D. Marcelina se mudou algumas vezes, em função do trabalho de seu
pai na lavoura cacaueira. Dentre os locais onde D. Marcelina residiu estão: os
distritos de Arraial e Sequeiro Grande, localizados no município de Itajuípe e
o município de Barro Preto. Todos pertencentes ao estado Bahia. Suas casas eram
de pau-a-pique. Em algumas o chão era a própria terra. Não havia saneamento
básico, sendo a água para uso retirada de cacimbas ou do próprio rio.
Aos 14 anos, D. Marcelina se casou e
foi morar com seu marido em uma fazenda próxima de Itaquara, município da
microrregião de Jequié, Bahia. Pouco tempo depois, ela engravidou. Sua gestação
foi interrompida com 2 meses, por um aborto espontâneo, sem complicações. Pouco
tempo depois, ela engravidou de sua primeira filha: Maria Tereza. A gestação e
o parto, por parteira, transcorreram sem complicações.
Quando Maria Tereza completou 6
meses, D. Marcelina retornou com seu marido ao município de Barro Preto, onde
estavam seus familiares. Um ano e meio depois, D. Marcelina deu a luz à sua
segunda filha: Maria Isaura, seguido por mais um filho: Joaquim, após outro
ano. Seus filhos também tiveram catapora, como ela. E tiveram algumas doenças
de criança, sem complicações.
Em 1990, com a crise da lavoura
cacaueira e em busca de oportunidades de trabalho, D. Marcelina e sua família
se mudaram para Itabuna. Pela primeira vez, eles estavam residindo em uma casa
de alvenaria, com água encanada e rede de esgoto. As oportunidades não surgiram
e, pouco tempo depois, aos 40 anos, D. Marcelina separou-se de seu marido,
retornando para o município de Barro Preto. Lá ela passou a morar com uma de
suas irmãs. Neste mesmo ano, D. Marcelina perdeu sua mãe. D. Nilza teve um
episódio súbito de “parada”. Um pouco antes ela parece ter perdido seus
movimentos.
Dez anos depois, diante da
necessidade de melhores oportunidades de estudo para seus filhos, D. Marcelina
retornou para residir em Itabuna, onde permanece até os dias de hoje.
Atualmente, D. Marcelina trabalha
como doméstica e é casa com um novo companheiro, o Sr. Geraldo. Suas filhas e
seus netos moram próximas a ela, também no bairro de Ferradas. Seu filho mora
em São Paulo, com o pai. Ainda não tem família.
Em termos de saúde, D. Marcelina é
hipertensa. Sente dores musculares no corpo todo, mas especialmente na coluna
lombar. Reclama estar um pouco acima do peso. Mas, diz ter começado uma dieta e
exercícios físicos.
Entre Senescência e Senilidade…
O tempo passou e D. Marcelina
continuo a acompanhar o seu estado de saúde na UBS local. Aos 60 anos de idade,
em 2010, conseguiu se aposentar. Desde antes havia iniciado uma rotina de
exercícios físicos : prática de aeróbica pelo programa “ Saúde na Praça”
oferecido pela Estratégia de Saúde da Família no bairro de Nova Ferradas. A
aposentadoria lhe deu maior segurança para permanecer alimentando maiores
cuidados a si própria.
Com o desenrolar dos anos, as
políticas públicas de inserção universitária (BRASIL, 2007), por meio do
ReUni, e programas sociais do decênio
Lula-Dilma (SÃO PAULO, 2013) possibilitou que grande parte de seus filhos e
netos alçam-se o ensino superior e acendem-se de padrão sócio-econômico. Sua
filha mais velha, Maria Teresa, formou-se em Direito e galgou uma vaga de
oficial de Justiça na Comarca de Itabuna; este fato deu á Marcelina maior
conforto em seu envelhecimento, pois contava com a ajuda financeira de sua
filha para as demandas em saúde, alimentação, lazer e cuidados pessoais.
Em 2015, D.Marcelina manteve-se
Hipertensa, contudo, fazia usa de medicação anti-hipertensiva, exercícios
físicos regulares e uma boa alimentação. O falecimento de seu marido, em 2017,
a abalou psicologicamente, mas a rede social envolta : Família, Igreja e
Comunidade a fez progredir e não chegar a um quadro depressivo. No ano de 2005,
ela estava pré-diabética - glicemia capilar de 150 mg/dL, na última mensuração -,
todavia chega aos 70, 2020, sem desenvolver Diabetes Mellitus do tipo 2, este
tão prevalente em populações acima de 40 anos e com menos de 8 anos de estudos
(FLOR; CAMPOS, 2017).
Chegou aos 80 anos sem desenvolver
demências (BURLÁ et.al., 2012) e doenças cardiovasculares (SOAR, 2013).
Portanto, envelheceu sem esmorecer.
REFERÊNCIAS:
SÃO PAULO. O Decênio que
mudou o Brasil. São Paulo : Fundação Perseu Abramo, 2013.
BRASIL. Ministério da
Educação. Programa de Apoio a Planos de
Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Disponível em
<http://portal.mec.gov.br/reuni-sp-93318841>. Acesso em : 09 de Dezembro de 2019.
FLOR, Luisa Sorio; CAMPOS, Monica Rodrigues.
Prevalência de diabetes mellitus e fatores associados na população adulta
brasileira: evidências de um inquérito de base populacional. São Paulo : Revista Brasileira de Epidemiologia
[online], 2017. Acesso em 09 Dezembro
2019. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1980-5497201700010002>.
ISSN 1980-5497. https://doi.org/10.1590/1980-5497201700010002.
BURLÁ, Claudia (et.al.). Panorama prospectivo das
demências no Brasil: um enfoque demográfico. Porto: Ciência & Saúde
Coletiva, 2012.
SOAR, Claudia.
Prevalência de fatores de risco cardiovascular em idosos não
institucionalizados. Rio de Janeiro : Revista Brasileira de Geriatria e
Gerontologia, 2015. Acesso em 09 de Dezembro de 2019. Disponível em : http://www.scielo.br/pdf/rbgg/v18n2/1809-9823-rbgg-18-02-00385.pdf
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