Como Dona Marcelina caiu...?
O tempo passou e Dona Marcelina Silva Santana está com 72
anos. Neste período, não somente sua rotina mudou, mas seu corpo também mudou.
Tudo Mudou! Principalmente depois que ela caiu. E esse foi o motivo da ida de
D. Marcelina ao posto de saúde…
O ápice dessa problemática foi uma queda ocorrida há mais
ou menos uma semana em sua casa. Preocupada com esse acontecimento, sua filha
Maria Tereza, decidiu levá-la a UBS do bairro para uma consulta médica, visto
que a mesma referia dor na parte
superior da coxa, nas imediações dos ossos do quadril. A mãe havia sofrido a
queda em decorrência de ter tropeçado pela pressa de fazer xixi. Sua marcha já
não estava tão boa e ela valia-se de bengala.
Na Unidade, D. Marcelina foi atendida pela médica Sofia
que iniciou a consulta interrogando-a sobre o motivo da procura, a resposta foi
dada por Maria Tereza antes que a mãe pudesse falar: a filha relatou que ela
teria caído, mas não se recorda muito bem e foi assistida pelo neto, quando
este ouviu o som de sua queda, e que desde o ocorrido vinha sentido dores na
perna direita e dando-lhe temor de que o episódio pudesse recorrer. Seguindo-se
na anamnese, Dr.a Sofia dirigiu-se para D. Marcelina e fez os seguintes
questionamentos:
- A senhora recorda em qual momento do dia essa queda
ocorreu, sabe mais ou menos o horário? - Pergunta Dr.a Sofia.
-
Doutora, minha bexiga anda frouxa… Não tô conseguindo prender o xixi mais
ultimamente. Estava eu a noite, mandando corrente de oração pelo Whatsapp para
minhas amigas da igreja e sentir uma vontade imensa de fazer xixi. Sai correndo
para o banheiro, só que daí eu caí, quando dei fé meu neto me acudiu. - Relata D. Marcelina.
- Desde quando a senhora enfrenta esse problema com a
bexiga frouxa?
- Há mais
ou menos 1 ano, minha filha. De uns tempos para cá, ficou pior…
- A senhora consegue segurar o xixi até o banheiro? Ou já
aconteceu de a senhora não conseguir?
- Às vezes, sim, às
vezes, não. De uns tempos para cá, não consigo segurar po muito tempo. E é de
repente e urgente. No dia da queda, fiquei toda molhada…
- A senhora tem o mesmo problema com as fezes?
- Não…
- Como a senhora a senhora caiu? - Questiona Dr.a Sofia.
- De uns
dias para cá, eu estou tendo dificuldades tanto para fazer coisas simples, como
colocar água no copo, como para andar. Ando tropeçando nas pernas, como meu
neto de 13 anos costuma fazer, o Juninho. No dia em que eu caí, senti minhas
pernas estabanadas, escorreguei no tapete de entrada do banheiro e fui ao chão
de costas. - Conta D. Marcelina.
- Como a senhora se levantou? Precisou de ajuda?
- Eu não consegui me
levantar sozinha, não. Meu neto, Sadrinho, de 20 anos, que me ajudou, me
pegando pelo colo. Ele é tão bonzinho comigo, doutora… Só tá magrinho o
bichinho.
- Depois traga-o aqui na unidade, D. Marcelina. Mas, me
conte, a senhora já caiu antes? - Indagou Dr. Sofia.
- Sim. Já
caiu, na rua, mas o que eu sinto dor é a primeira vez.
- Com que frequência a Sra. vai ao oftalmologista?
- Oh,
minha filha, já tem um tempo que não troco esse óculos.
- A senhora está sentindo alguma dificuldade para se
locomover?
- Quando
ando, dói.
- A dor veio logo depois da queda?
- Sim.
- Existe algo que a Sra. faz que melhora essa dor?
- Eu
tomei um dorflex, melhorou um pouco.
- Existe algo que a Sra. faça que piore essa dor?
- Quando
me movimento.
- D. Marcelina, de 0 a 10 quanto a senhora sente dor?
- 7.
- A dor fica só na perna ou a senhora sente que ela
“caminha” para outro lugar?
- Não, minha flor.
Ela fica só aqui nessa perna mesmo.
- A senhora tem sentido algum tipo de fraqueza?
- Sim há um tempo
mas nada que me impeça de fazer alguma coisa.
- Quando começou esses episódios de tontura?
- Ah,
minha filha, não sei.
- Quais os remédios que a senhora toma?
- Losartana, metformina.
Feita a entrevista clínica, o exame físico e testes
complementares, a médica da unidade solicitou que ela suspendesse o uso do rivotril
- isto poderia lhe acentuar às tonturas -, receitou um analgésico e a
encaminhou para realização de uma radiografia femoral, que mostrou uma luxação
de quadril, corrigida. Pediu a D. Marcelina e a filha que retornassem assim que
tivessem com o exame em mãos ou sentisse qualquer alteração.
No retorno, a médica realizou alguns teste para
avaliar a marcha e estabilidade postural da idosa. O exame radiografico
constatou uma luxação em quadril que foi corrigida no Hospital com manobras
ortopédicas e medicações analgésicas.
❖
Ao exame físico, a médica
levantou os seguintes dados clínicos de D. Marcelina:
●
À Inspeção estática:
paciente acianótica, anictérica, afebril, corada. Mancha arroxeada no local de
dor referido.
●
À inspeção dinâmica: marcha
refrativa para membro inferior direito.
●
À palpação: reclama de dor no local referido e
palpado.
●
Sinais Vitais: temperatura
axilar de 36,5° C; FC: 87 bpm; FR : 17 irpm; P.A (sentada): 130/80 mmHg, PA (em
pé, braço esquerdo): 120/70 mmHg, PA(em pé, braço direito): 120/70 mmHg. Bulhas
Cardíacas normofonéticas e Ausência de MMVV.
❖ Como complemento ao exame
físico foram realizadas três testes: Get
up and go (Levante e ande), o teste de Tinetti,
o teste de alcance funcional, teste do estresse, teste de glicemia capilar e
foi solicitado o preenchimento do Diário Miccional em casa. Dos quais
obtiveram-se os seguintes resultados,
●
No teste Get Up and Go,
pediu-se que D.Marcelina levanta-se do assento, desse uma pequena volta no
consultório e voltasse a se sentar. Foi observado pequena dificuldade, com
retorno pouco lentificado e marcha caudicante para a esquerda;
●
Para o teste de Tinetti, formado por um escopo de pequeno
exercício, D. Marcelina obteve pontuação 20; indicando tendência de leve a
moderada ao risco de queda.
●
Ao teste de alcance funcional. a extensão antero-lateral de
membro superior em direção ao inferior deu um comprimento de 22,5 cm; o que
denota risco duas vezes maior de reincidência de quedas.
Abaixo segue uma breve definição e exposição dos testes
complementares utilizados no exame de D. Marcelina.
O teste Get Up and Go consiste em observar o
paciente após pedir: "Levante-se da cadeira, ande três metros, retorne e
sente-se." Durante o teste observa-se a capacidade muscular dos membros inferiores
de levantar de uma cadeira sem apoio, o equilíbrio e a posição dos pés e braços
durante a marcha, assim como a estabilidade do corpo.
O teste de Tinetti
consiste em uma escala com 16 tarefas que são avaliadas por meio da observação
do examinador. São atribuídos pontos de 0 a 2 na realização das tarefas,
totalizando no máximo 32 pontos. Escores abaixo de 19 pontos e entre 20 e 24
pontos representam riscos respectivamente alto e moderado de quedas.
O teste de alcance
funcional tem como objetivo determinar o quanto o idoso é capaz de se deslocar
dentro dos limites de estabilidade anterior e lateral. É empregado para avaliar
a estabilidade anteroposterior, medindo o deslocamento máximo anterior com o
braço estendido, sem mover os pés.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
PARADELA, Emylucy M.
P. A avaliação clínica do idoso que cai. Revista
Hospital Universitário Pedro Ernesto,v. 2 , n. 13, 2014.
COUTINHO, ESF; SILVA,
SD. Uso de medicamentos como fator de risco para fratura grave decorrente de
queda em idosos. Cad. Saúde Pública,
v. 5, n. 18 , p. 1359-1366, 2002.
LOPES, LS;
MURRER, G; LIMA, NCP, (et. al.) Hipotensão ortostática
em pacientes idosos ambulatoriais. Arq
Med ABC: São Paulo, 2007.
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