Dona Marcelina anda meio esquecida...
O tempo passou e Dona Marcelina Silva
Santana acabou de completar 65 anos. Sua rotina mudou um pouco nos últimos
anos. Ela aposentou-se e, atualmente, fica a maior parte de seu tempo em casa
com os netos. Funcionalmente ativa, gosta de arrumar sua casa e de ir ao
mercado comprar “as coisas” para cozinhar. Também continua frequentando a
igreja, em menor assiduidade, porque nem sempre está disposta ou porque
“ninguém” quer ir com ela. Ela havia ido pouco à UBS desde 2007. Em 2010,
compareceu e começou a preencher a sua caderneta de saúde da pessoa idosa. No
ano de 2015, D. Marcelina estava sentindo “tropeços”
na seu caminhar, estava um pouco triste e sua memória já não continuava a
mesma...
Interessante é que, de uns “meses
para cá”, D. Marcelina percebeu que anda meio esquecida. Certo dia, ela estava
indo ao mercadinho da esquina e esqueceu de desligar a panela do fogo. Em outro
dia, ela não conseguiu lembrar o número do telefone de Maria Tereza e ainda
esqueceu que tinha marcado com seu grupo da igreja para a atividade de doação
semana. Suas filhas também notaram que D. Marcelina estava com dificuldade para
lembrar nomes e recados. Suas amigas disseram que esse esquecimento era “normal
da idade” e que seria bom tomar Ginko Biloba.
Mesmo assim, D. Marcelina decidiu
procurar a Unidade Básica de Saúde Manoel Rodrigues, que fica próxima de sua
casa. Sua filha Maria Tereza a acompanhou no atendimento, que foi feito por
Dra. Flávia.
Mesmo assim, D. Marcelina decidiu
procurar a Unidade Básica de Saúde Manoel Rodrigues, que fica próxima de sua casa.
Sua filha Maria Tereza a acompanhou no atendimento, que foi feito por Dra.
Flávia.
“– Boa tarde! — respondem as três.
– E aí, pessoal, tudo bem? — pergunta Dra.
Flávia.
– Tudo, tirando o fato de eu andar
meio esquecida… Parece que as coisas me fogem da cabeça… Mas assim, eu lembro
de tudo. Isso que acontece é meu rápido… depois volta. Entende? — responde D.
Marcelina
– Sim… Mas, me diga uma coisa, o que
exatamente a senhora anda esquecendo? Consegue me dizer quando começou a notar
esses esquecimentos? - pergunta Dra.
Flávia.
– Esqueço coisas “bobas”... Às vezes
o número de telefone... os recados que recebo… os compromissos… esses dias
esqueci que tinha combinado de ir com o pessoal da igreja fazer a doação dos
brinquedos. E olha que eu gosto muito de fazer isso. Mas, minhas filhas ficaram
preocupadas mesmo quando eu esqueci a panela no fogo. Logo eu, que sempre fui
tão cuidadosa… Mas não sei dizer quando começou não… Maria Tereza confirma com
a cabeça.
– A senhora dorme e se alimenta bem?
Tem alguma coisa te preocupando neste momento? Tem sentido alguma outra coisa
além do esquecimento? — pergunta Dra. Flávia.
Nesse momento Maria Tereza intervém
e explica que a mãe anda bastante preocupada com Sr. Osvaldo, seu pai. Ele tem
Doença de Alzheimer e os sintomas estão piorando bastante. Ele quase não se alimenta mais. E frequentemente
se esquece dos filhos, até mesmo de sua irmã Maria,que é quem cuida dele. A
filha ainda relata que a mãe tem perdido a habilidade que tinha de costurar
tricô : “ Ela não consegue mais da
‘pontos como antes’ quando tricota.”
– Ah — diz Dra. Flávia.
– Bem… Vou precisar fazer algumas
investigações, para poder pensar no tratamento. Vou solicitar alguns exames e
voltamos a nos ver assim que obtiver os resultados. Combinado?”
A médica realizou o Mini- Exame de
Esatdo Mental, ue deu o seguinte resultado :
- levando em consideração que a paciente é analfabeta - de 17 pontos. A
escala de depressão de Yasava deu o valor de 10. O teste de CDR ( Clinical
Demential rating), o valor dado foi dado 21.
★
Perguntas geradoras:
a) Considerando
a queixa de D. Marcelina, quais exames complementares devem ser solicitados?
Explique em quê cada exame poderá contribuir para o raciocínio clínico.
Considerando as principais hipóteses
diagnósticas levantadas, isto é, Demência, Depressão e Ansiedade, alguns exames
laboratoriais podem ser solicitados. A principal importância da realização de
exames complementares na avaliação clínica de síndromes demenciais é a de realizar
o diagnóstico diferencial, descartando uma ou mais demências, ou confirmando
suspeitas não demenciais:
➔ Hemograma Completo: Avalia o estado
geral do tecido sanguíneo e a saúde das células que compõem o sangue,
considerando-o transportador de hormônios, nutrientes e outras substâncias
endógenas e exógenas importantes para a fisiologia do indivíduo.
Outros exames de sangue poderão ser
solicitados, com o objetivo de descartar ou não hipóteses de demência, a
exemplo de:
➔ Exame de níveis séricos de Vitamina
B12: A deficiência de
vitamina B12 (cianocobalamina) pode produzir vários distúrbios neurológicos,
incluindo neuropatia periférica, degeneração subaguda combinada da medula
espinhal, neuropatia óptica e distúrbios cognitivos que variam de leve confusão
a demência ou psicose.
➔
Exames de níveis séricos de cortisol
➔
Exame de níveis de LH, FSH, estrogênio e
progesterona
➔
Exame de hemoglobina glicada
➔
VHS - Velocidade de Hemossedimentação
➔
FAN - Fator Antinuclear
➔
Punção do Liquor
➔
Ureia
e creatinina - Ácido fólico
➔
Enzimas
hepáticas - Sorologia para sífilis , sorologia para o T. pallidum é
recomendável em pacientes com demência, e se os dados clínicos e laboratoriais
forem sugestivos de processo infeccioso crônico, deve ser feito o exame do LCR,
pois a época em que o diagnóstico é estabelecido determinará o sucesso do
tratamento.
➔
T4
livre e TSH - Sorologia para HIV em pacientes com idade inferior a 60 anos:Para
o quadro de demências secundárias o diagnóstico depende de exames de
neuroimagem estrutural.
➔
Tomografia
computadorizada
➔
Ressonância
magnética - Através dele é possível fazer uma avaliação detalhada da substância
branca, para o diagnóstico de demência vascular anterior a doenças de pequenos
vasos.
b) Quais
suspeitas diagnósticas você levantaria com as informações que possui?
A queixa subjetiva de perda de
memória é recorrente na população idosa. Entretanto, o declínio do desempenho
mnemônico nas atividades de vida diária (AVD) não indicam comprometimento
objetivo da memória, constatável através de testes neuropsicológicos. Como
possíveis razões para tanto, têm-se, em primeiro lugar, a associação entre
quadro de depressão ou traços de personalidade com a perda de memória e, em
segunda instância, a não identificação do estágio subclínico do comprometimento
objetivo da memória por instrumentos neuropsicológicos comuns (SANTOS;
LEYENDECKER; COSTA; SOUZA-TALARICO, 2012). Sendo assim, considerando a não
aplicação de testes de avaliação neuropsicológica em D. Marcelina até o momento
da última ida à Unidade Básica de Saúde do bairro de Ferradas, isto é, março de
2015, levanta-se a hipótese de existência de sintomas depressivos que levam à
perda de memória da paciente.
Por outro lado, D. Marcelina relata
seus episódios de declínio de memória como sazonais, mas que interferem na
dimensão social e nas AVDs ainda assim. De acordo com Paulo e Yassuda (2010), a
partir de estudo transversal com idosos entre 60 e 75 anos, a percepção
subjetiva de comprometimento da memória e as subsequentes consequências desse
sintoma no cotidiano do idoso pode estar associada a quadro de ansiedade, em
detrimento ao constructo de sintomas depressivos. No mesmo estudo, a relação
entre escolaridade baixa e perda de memória, outra circunstância possível ao
quadro de D. Marcelina, não é constatada. O possível estado neuropsicológico de
ansiedade de D. Marcelina que a poderia fazer perder a memória ocasionalmente,
causando impactos na sua rotina, também pode estar relacionado
proporcionalmente ao estímulo estressante caracterizado pelo agravamento da
doença de Alzheimer de seu pai.
Em observância às características da
queixa principal trazida por D. Marcelina e por sua filha, levanta-se outra
hipótese diagnóstica, a demência. O momento de princípio dos lapsos de memória
de D. Marcelina não é especificado, o que pode ser implicação tanto do próprio
processo de comprometimento mnemônico quanto da influência negativa do sintoma
no cotidiano de D. Marcelina só recentemente. O último aspecto explicaria o
possível quadro de demência, considerando que tal síndrome tende a progredir
lentamente ao longo de anos, até que o comprometimento da memória seja tão
perceptível e influente na vida do indivíduo ao ponto de exigir procura por
atendimento clínico. Ademais, D. Marcelina reclama de perda de memória de fatos
recentes e simples do dia-a-dia. Tal relato pode ser interpretado enquanto
manifestações iniciais do comprometimento cognitivo leve. No entanto, para a
confirmação de demência, precisa-se da existência de pelo menos uma outra
função cognitiva (linguagem, gnosias, praxias ou funções executivas)
comprometida, o que, até o instante, não é o caso (SCHLINDWEIN-ZANINI, 2010). A
causa possível para a demência de D. Marcelina pode ser a Doença de Alzheimer,
considerando os aspectos genéticos e familiares do caso. Entretanto, para
confirmar tal hipótese, precisa-se de informações acerca do comprometimento
cognitivo em outras dimensões além da memória.
c)
Diante das suspeitas, quais
instrumentos da avaliação geriátrica ampla você utilizaria? Explique um pouco
sobre cada um.
São vários os testes existentes para
avaliar as funções cognitivas em idosos. Todos tem o objetivo principal de
detectar precocemente alterações funcionais na cognição, auxiliando na diagnose
rápida, definição de melhores terapeuticas e prognosticos mais acurados. Os
testes aplicados devem ser simples, rápidos e reaplicaveis; nã devem contar com
a necessidade de materiais complementares e conhecimentos sofisticados para a
sua execução.
Dentre os testes e escalas aplicados
para rastreio um dos mais recomendados o chamado Mini-mental. Ele é um teste
rápido e eficaz para levantamento e acompanhamento da cognição, e avaliação da
eficácia terapêutica. Para a sua aplicação é necessário que o profissional
estabelecer um bom vínculo interpessoal com o paciente, deixando-o à vontade
para das as respostas, sem operar juízos de valore; é necessario solicitar ao
paciente total atenção para que se possa avaliar adequadamente a memória deste.
Vale ressaltar que o Mini-Mental é de caráter generalista, não servindo para
diagnosticar sindromes cognitivas, demenciais especificas. O teste em si
consiste em é composto por 11 ítens e a pontuação máxima é de 30 pontos. A
primeira metade do teste avalia basicamente a memória e função executiva. A
segunda metade avalia também outras funções corticais (linguagem, gnosia,
praxia, função executiva e função visuoespacial).Portanto, é um teste capaz de
rastrear todas as funções cognitivas, de modo variável, não podendo ser
utilizado isoladamente para o diagnóstico das síndromes demenciais. A tendência
atual é a utilização dos seguintes pontos de corte, dependendo da escolaridade
do paciente:
❖ Analfabetos/baixa escolaridade: 18
pontos;
❖ 8 anos ou mais de escolaridade: 26
pontos.
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